Viajar é aprender

13/02/2021


Assisti esse filme estava no último ano da faculdade, sem saber onde iria trabalhar e com um anseio de sair e ver o mundo, então me identifiquei de imediato com o protagonista e as continuações também me levaram a refletir sobre o momento de vida que passava. Recomendo o filme para todos que amam pôr o pé na estrada.

O filme acompanha a busca do jovem universitário francês, Xavier, um estudante de economia, terminando a faculdade e que precisa aprimorar o espanhol, para logo após se formar ter um emprego garantido no Ministério francês de economia, garantido por um amigo de seu pai. Então, ele decide viajar para Barcelona para se matricular um uma universidade de lá e ter a experiência em língua espanhola que precisa.

Como o protagonista diz "essa não é uma história sobre avião", mas ao partir, dentro do avião ele demonstra o medo do inusitado, da mudança, tão característico quando se está prestes a ir para um lugar totalmente fora da zona de conforto.

É muito interessante ver como ao chegar Barcelona, uma cidade desconhecida, ele se perde, pede informação numa língua que não domina, e que passado o susto inicial pensa que após um tempo aquele lugar estranho, intimidador, se tornará uma parte dele, da sua história. É animador ver no filme como as complicações de se estar em uma nova cidade se tornam uma aventura para o Xavier, aventuras que serão contadas, lembradas com carinho.

Esse filme é uma síntese do que se esperar em uma viagem, do se permitir mudar os conceitos ao visitar um outro lugar.

Xavier ao chegar em Barcelona, se depara com algo bem comum na estrada, a solidariedade viajante, ao encontrar no voo um casal francês que vive em Barcelona, que acaba lhe oferecendo um teto até que ele resolva sua vida na nova cidade. Uma solidariedade que é vista em maior ou menor grau na estrada, pois, viajantes se entendem e se ajudam.

Ao buscar uma moradia estudantil, o que aqui no Brasil seria chamado de republica, ele encontra um apartamento dividido por jovens europeus de diferentes nacionalidades: um italiano, uma inglesa, um alemão, um dinamarquês e uma espanhola. O apartamento fica conhecido como Albergue Espanhol, que é uma expressão idiomática espanhola que significa lugar onde cabe toda a gente. O filme se passa logo antes da implantação da União Europeia, então a moradia do filme acaba sendo uma síntese das diferenças e semelhanças, dos estranhamentos e da solidariedade entre as diversas nações europeias prestes a fazer parte do bloco.

A moradia então é um lugar de misturas de cultura, de mistura de anseios de jovens construindo seu futuro, um lugar onde precisam aprender a viver coletivamente, respeitando a individualidade de cada um.

De fato, o apartamento logo se torna um cenário de confusões, seja por causa da organização e limpeza de um lugar lotado, pelos encontros e desencontros amorosos dos moradores ou pelo choque cultural, tão comum ao se conviver com o diferente.

A questão da busca Catalã pela separação da Espanha permite que haja diálogos interessantes no filme sobre nacionalidade, identidade e respeito.

Xavier além de se ver mergulhado em toda essa mistura, em um fluxo de informações novas, também, como todos nós, precisa lidar com sua confusão interna, com sua afetividade e sexualidade. Assim, busca conselhos de sua colega de faculdade, que se torna mais uma moradora do Albergue. Assim sua colega, lésbica, lhe dá dicas de como tratar e conquistar mulheres. Então ele tem que conciliar a vida afetiva na nova cidade e o relacionamento com a namorada que deixou na Espanha, dando espaço no filme para corações partidos e recomeços amorosos.

Toda essa ebulição de sentimentos, de experiência, que leva a incertezas e inseguranças fica ainda melhor evidenciada com a melancolia da música No Surprise da banda Radiohead que é a trilha sonora do filme.

Além de vermos o olhar de quem está vivenciando uma nova cidade, vemos o olhar de quem ficou para trás, quando a namorada de Xavier ao visita-lo vem com reclamações e críticas sobre a cidade e o Albergue, e ao dizer "parece que somos dois estranhos", isso nos faz lembrar como viajar nos muda, e como quem não nos acompanha na jornada deixa de nos conhecer.

Outro visitante no Albergue, o irmão da moradora inglesa, retrata aquele viajante preso a estereótipos, que generaliza, cheio de preconceitos, evidenciando como é nocivo tal comportamento e como é preciso estar de mente aberta ao viajar e entrar em contato com pessoas de outras culturas.

Então, após conhecer nativos, frequentar seus locais, enfim se misturar a Barcelona, chega o momento de Xavier voltar a Paris, para o emprego burocrático garantido pelo amigo de seu pai. Só que o jovem que saiu de Paris não é o mesmo que retorna, ele agora é um pouco de todos que passaram por seu caminho e seus objetivos mudaram ao longo de sua estadia na Espanha. Enfim uma viagem não é uma viagem se ela não nos transforma, não mexe com quem somos de alguma maneira, pois viajar não é só percorrer distancias físicas, mas sim viver experiências que irão nos mudar.

Como o próprio Xavier diz no início do filme, esta não é uma história sobre avião, mas ao fim ele percebe que na verdade é uma história sobre decolagem, sobre voar rumo ao que se quer, se permitir vivenciar cada momento, mudar, aprender, aceitar. E eu acrescento, que é uma história sobre o decolar e o aterrissar, ou melhor, sobre o que acontece entre esses dois momentos, afinal, o viajante que decola e o que aterrissa já não é o mesmo.

Albergue Espanhol (L` Auberge espagnole)

 Ano 2002 ‧ Drama/Comédia ‧ 2h 20m

Direção: Cédric Klapisch  

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=hTEWUuG5flc